FIDCs e a nova era dos recebíveis digitais
A digitalização dos recebíveis e a regulamentação da duplicata escritural pelo Banco Central criam um ambiente novo e potencialmente mais favorável para os FIDCs
A digitalização dos recebíveis e a regulamentação da
duplicata escritural pelo Banco Central criam um ambiente novo e
potencialmente mais favorável para os FIDCs — fundos que compram
direitos creditórios (duplicatas, faturas, títulos a receber) e os transformam
em instrumentos de funding para empresas.
A duplicata escritural interessa aos FIDCs porque padroniza
e registra eletronicamente o crédito comercial, aumentando
rastreamento, segurança jurídica e transparência. Para os gestores de FIDCs,
isso representa ativos mais organizados, com menor risco operacional e
processos de validação mais rápidos, reduzindo custos e ampliando o potencial
de liquidez. A Resolução BCB nº 339/2023 e os convênios técnicos entre as
registradoras criaram o marco regulatório que sustenta essa nova infraestrutura
digital.
Vantagens para os FIDCs
- Ativos
mais padronizados e líquidos — duplicatas escriturais, quando
registradas e escrituradas por entidades autorizadas, tornam-se mais
homogêneas, facilitando agrupamentos e precificação por gestores. Isso aumenta
a atratividade dos FIDCs como meio de aquisição de recebíveis.
- Redução
de custo operacional e jurídico — menos necessidade de análises
manuais e de verificação documental, com processos eletrônicos que aceleram
a compra e a cobrança de recebíveis.
- Maior
atratividade para investidores — com ativos mais transparentes e
seguros, os FIDCs passam a interessar também a investidores institucionais
e a pessoas físicas com perfil de renda fixa, apmpliando a base de fundos
- Novos
produtos estruturados — maior previsibilidade de fluxos permite
a criação de diferentes níveis de cotas, garantias e estruturas que
ampliam a liquidez e reduzem o custo do financiamento às empresas
cedentes.
Avaliação de riscos e pontos de alerta
Apesar do cenário favorável, existem alguns pontos sensíveis
a se considerar. Concentração de crédito e o risco de carteira é
uma delas. A padronização não elimina risco de crédito: carteiras mal
estruturadas ou com concentração setorial ainda podem gerar perdas
significativas para cotistas do FIDC.
Além disso, a transição para escrituração eletrônica
exige investimentos em integração (ERPs, registradoras, custódia), e falhas
podem gerar contestação de títulos ou litígios. A operacionalização correta
é essencial para que a promessa de liquidez se realize.
Outro aspecto importante a ser considerado é a competição
por ativos e a compressão de spreads, pois com maior oferta de
ativos padronizados, a competição entre gestores pode reduzir spreads e margens.
Nesse cenário alguns operadores com maior capacidade de escala poderão ser
favorecidos.
Evidências e dados recentes do mercado
Segundo análise da ANBIMA, houve um crescimento expressivo
dos FIDCs. Entre dezembro de 2020 e abril de 2024 o número de FIDCs aumentou
106%, com aumento de 179% no patrimônio líquido dessa modalidade, um
sinal claro de demanda por financiamento via direitos creditórios.
Também houve um aumento do apetite de investidores de
varejo. A ANBIMA destacou que o investimento de pessoas físicas em FIDCs
aumentou substancialmente em 12 meses, com crescimento de três dígitos em
alguns recortes, apontando diversificação da base de investidores
Produtos de securitização tiveram volumes relevantes em 2024.
Relatórios apontam que os FIDCs levantaram cifras importantes e dados
operacionais (ofertas e captações) mostraram um mercado aquecido no ano passado.
Fontes indicam que as emissões e ofertas em 2024 atingiram patamares notáveis,
reforçando o interesse institucional por crédito estruturado.
Esse cenário mostra que o mercado de FIDCs já vinha ganhando
espaço antes mesmo de a duplicata escritural se consolidar — e a nova escritura
tende a acelerar essa dinâmica.
Perspectivas: o que esperar para os próximos anos
O cenário é de crescimento contínuo. A tendência é
que os FIDCs ganhem ainda mais relevância como alternativa de financiamento
fora do sistema bancário tradicional, impulsionados por:
- Aumento
da oferta de ativos padronizados via duplicata escritural;
- Demanda
das empresas por novas formas de captação;
- Interesse
crescente dos investidores em ativos de crédito privado com boa
relação risco-retorno.
A duplicata escritural e a digitalização dos
recebíveis colocam os FIDCs em posição privilegiada para crescer e
oferecer soluções de liquidez mais eficientes ao mercado corporativo. As vantagens
são claras: ativos padronizados, maior liquidez e atração de novos
investidores. Porém, o crescimento sustentável dependerá da capacidade de adaptação
tecnológica, governança sólida e gestão de risco eficiente.
Dados do mercado, levantados pela ANBIMA e bases setoriais, já
mostram crescimento robusto dos FIDCs nos últimos anos, e a expectativa
é de que o ritmo continue à medida que duplicatas escriturais e infraestruturas
correlatas se consolidem. Quem souber alinhar inovação, segurança e performance
financeira estará à frente da próxima onda de transformação no crédito B2B.
Fonte: Redação Idea D